
― Você só gosta dos atrevidos.
Sorri. Você sempre foi o mais atrevido de todos.
― Não é verdade.
― É sim. E tem gente que se engana com você, te acha puritana e tal. Tu gosta mesmo é dos safados, o que te torna uma safada.
― Não sou safada.
― Gosta de safadeza, mas se finge de santinha.
― Mas eu sou santinha.
― Quem não te compra é quem não te conhece, menina.
― O certo é “quem não te conhece, é que te compre”.
― Eu sei qual é o certo, quis dizer isso mesmo.
Sorri.
― Nunca gostei dos safados antes de você, sabe.
― Eu que te levei pro mau caminho. Deveria me sentir mal?
― Tu me fez viciar em caras do seu tipo.
― Que tipo?
― O pior tipo. ― Eu ri. ― O que te leva pro céu e pro inferno. O tipinho básico de canalha que acaba contigo que em vez de tu odiar, tu gosta mais ainda cada vez que ele apronta. O melhor tipo, pra falar a verdade. O que eu mais gosto.
― Então tu é safada por completo. Gosta de uma bagunça até na tua mente. Pensei que era doida quando me escolheu, agora eu tenho certeza. Se te dessem dez caras bons e um ruim pra escolher, tu com certeza iria gostar do ruim. É isso?
― Que seria você, no caso.
― E eu agradeço pelo seu dedo podre em relacionamentos.
― Fazer o quê.
― Sou o tipo que tu mais gosta, então?
― Não. Tu é o que eu mais gosto do tipo que eu mais gosto ― Pisquei. ― Meu canalha preferido. (Iolanda Valentim)

A gente se apega à qualquer coisa quando quer realmente ser feliz. Até um shampoo cheiroso, um programa bobo ou um cachorro balançando um rabinho podem te deixar feliz. Claro, se você quiser. Mas tem gente que quer passar a vida inteira no fundo do poço sofrendo e chorando, então, que seja. Passe. Só tô dizendo que se você quer ser feliz, você é. Você acha a felicidade em qualquer lugar, constrói uma. Você inventa felicidade, nem que passe em alguns minutos. Você é feliz só de achar uma moeda no meio da rua às vezes. O sorriso de um estranho que passa por você também pode te deixar feliz. Meu Deus, o mundo à sua volta pode ser sua felicidade! Você não enxerga, né? Inventa desculpa pra estar por aí chorando pelos cantos. Acha lindo se doer tanto assim, totalmente poético. Mas, meu bem, poesia não traz felicidade. Poesia é ser sempre solitário, triste e doído. Deixa ela pra lá e vai admirar o cachorro abanando o rabinho. Não é poético, mas te faz sorrir. E entre essas duas opções, ultimamente, tô preferindo sorrir. (Iolanda Valentim)

― Você nem consegue disfarçar.
― Disfarçar?
― Você falta babar quando ele tá por perto.
― Não é verdade.
― Você sabe que é.
― Mas a culpa não é minha.
― É de quem então?
― Dele. Ele é tão… droga, perfeito.
― Não é não.
― Claro que é. Ele sabe tudo de trigonometria. Eu babo porque não tem coisa mais linda que ele resolvendo uma função tangente. Ele é tão inteligente.
― Todos os professores de matemática também sabem fazer isso. Eu sei. E nem por isso você fica boba com os outros.
― Ah, mas ele é diferente.
― Ele é igual à todos os outros e tu é uma boba.
― Ele é o que? Ta brincando né? Ele é tão único.
― Só você vê isso. E acha que tudo nele é lindo.
― Claro que não, ele tem o dentinho separado. Igual à Madonna. É lindo.
― Você gosta da Madonna?
― Não.
― Acha bonito o dentinho separado dela?
― Não.
― Então.
― É que nele, fica lindo.
― Você consegue pelo menos enxergar algum defeito nele?
― Ah, ele é meio antipático e…
― Ah bom, pelo menos um.
― … mas eu amo isso nele.

Eu queria gritar pra você: sai daqui, sai de mim! Se afasta, me deixa em paz! Some, pára de me deixar louca, pára de me fazer ficar assim… vulnerável. Assim, idiota. Assim, sua. Sai. Pára. Já chega. Eu não aguento isso. Eu não sei amar ninguém não. Me deixa aqui infeliz com a minha segurança e minha enorme parede imaginária que barra tudo e todos de se aproximarem de mim. Pára de abrir uma brecha nela. Você não quer entrar. Por favor, não entra. Por favor, não me deixa assim na sua mão. Eu não gosto disso. Isso de ser feliz. Eu sempre espero coisa ruim da felicidade. E eu prefiro não ter coisa alguma do que me arriscar à um dia não ter mais isso. Então… chega, tá bom? Vai pra casa, cuida da sua vida, das suas roupas. Malha a perna e deixa de malhar o braço por que você está parecendo cada dia mais com um sorvete. O sorvete mais lindo da minha vida. Então por favor, não me deixa te amar mais do que eu já amo não. Eu vou explodir em mil pedacinhos se isso acontecer. E quem me garante que você vai juntar todos eles? Eu não quero ficar em pedacinhos por você, quero ser inteira por mim, você entende? Diz que não entende. Diz que cola meus pedacinhos. Mente pra mim, porque eu amo até suas mentiras. Você sempre pisca mais que o necessário quando mente. Você não sabe mentir. Mas eu te deixo acreditar que acredito nas tuas mentiras só pra ouvir tua voz mais um pouquinho. Só quero você mais um pouquinho, depois você vai embora, ta certo? Amanhã. Amanhã você vai embora e nunca mais volta pra minha vida, entendido? Ou depois… (Iolanda Valentim)

Coca-cola, formigas atômicas e combo de pipoca.
Tava na fila do cinema quando vi um cara com blusa das formigas atômicas acenar pra mim. Olhei duas, três, cinco mil vezes pra ver se eu não tava delirando. Ele vinha na minha direção com os braços abertos e eu calculei a distância entre o elevador mais próximo e eu. Não dava tempo de correr. Também não dava tempo de cavar um buraco no piso do shopping e pular dentro.
― Ei, preta. ― Ele me deu um abraço estranho de uma só mão e eu meio que abracei a outra mão dele e… hãm, foi um desastre. Mas meu coração doeu quando eu ouvi essa voz e esse apelidinho que anos atrás, eram suficientes pra deixar meu dia mais feliz.
― O…hei… ã. ― Eu queria dizer “Hey, oi, e aí?”. Mas não conseguia pronunciar direito.
― Quanto tempo né.
― Pois é… ― Balancei a cabeça.
― É… e aí?
― Tudo nice.
― Então… anos, né?
― Pois é. Três ou quatro.
― Acho que é quatro.
Três anos, nove meses e quatro dias, querido.
― É…
― Arram…
― Pois é.
Passamos algum tempo nos olhando constrangedoramente. Lembrei do tempo que nós tínhamos assunto. Era natural como respirar. Passávamos umas boas três, quatro horas no telefone. O assunto nunca acabava e o silêncio também não era um incômodo, nós meio que nos entendíamos. E olha só pra gente agora. Procurei na minha cabeça algum assunto que poderia falar com ele, mas não vinha nada. Estava quase correndo pra longe quando…
― Uma amiga minha te viu um dia desses.
Meses e meses atrás, corrigi mentalmente.
― Dalila?
― Não, não. Você não conhece.
― Então como ela sabe quem sou eu?
Ok. Já posso correr. Deveria dizer “não, é que assim, você é meio que o cara que eu mais amei na vida e meio que eu ainda falo de você pra Deus e o mundo”? Não né.
― Quis dizer que você não deve se lembrar dela, enfim, esquece.
― E esse suco aí na tua mão?
Olhei pra baixo e notei realmente que eu estava segurando um copo de suco de laranja. Alguém, que eu não me lembrava agora quem era, tinha ido comprar pipoca pra gente também, eu acho.
― É um suco.
― Tá brincando que é um suco? ― Ele ironizou. ― Tô querendo saber, é, cadê tua coca cola?
― Ah, sim, sim. Não tomo mais, sabe. ― Era minha deixa. Ensaiei falar isso faz anos. ― Mudei muito.
― Tu? Mudou? Tu? Parou de tomar coca? Ta beleza, eu acredito.
― Não ta vendo o suco na minha mão? Parei de tomar coca.
― Não parou não.
― Parei. ― Queria jogar o suco na cara dele ― Isso aqui é suco.
― Mas continua querendo tomar coca.
― Isso não significa nada.
― Claro que significa. ― Ele sorriu ― Significa que tu deixou de tomar coca, mas nunca vai deixar de tomar coca. Ela ta aí dentro de ti ainda. Tu sempre vai desejar uma coca gelada que rasga a garganta. Pega logo uma coca.
Verdade. Quase pude sentir o gosto enquanto ele dizia isso. Como eu queria coca-cola. Quase dois anos que eu não tomo e eu nunca deixei de querer tomar.
Mas enfim, o que tem haver?
― Que bom que só querer não dá celulite né? ― Sorri.
― Você seria linda de qualquer forma. Com ou sem celulite. ― Ele falou em um tom mais baixo e mais intenso, e eu tive um ataque cardíaco, pelo menos era o que eu sentia. Olhei pros lados disfarçando a timidez.
― E os caras? ― Ele perguntou quando teve a certeza de que eu não iria mais responder.
― Que caras?
― Os caras, né.
― Hãm?
― Namorados, preta, namorados, problemas, paqueras, etc.
Ah sim. Isso me lembrou que tinha alguém comprando pipoca em algum lugar desse shopping. Olhei de relance pra ver se encontrava, mas aparentemente não estava em nenhum canto. Ou era culpa minha, que só conseguia ver o cara de camisa das formigas atômicas na minha frente.
― Tô namorando.
― Você? ― Ele levantou a sobrancelha.
Me senti um pouco ofendida com o tom de voz dele. ― Eu mesma.
Ele me fitou por algum tempo em silêncio.
― O que? ― Já tava sem paciência.
― É… ― ele pensou por mais alguns segundos ― Estranho, eu acho.
E eu entendi o que ele quis dizer. A gente só se conhecia como um sendo a pessoa do outro. Nós éramos o amor da vida um do outro, a alma gêmea, a metade da laranja e qualquer outro nome que dão pra isso. Era algo fora do contexto esse nosso encontro, a gente aqui, como dois conhecidos que não se vêem há anos. Como que a gente foi se perder assim? Como que nossas vidas que pareciam tão juntas e tão entrelaçadas e tão grudadas, inventaram de mudar de rumo? Eu me sentia até culpada, eu acho. Era tudo bonito demais e triste demais e apaixonado demais pra ter acabado.
― É.
― Ainda escreve?
(Escrevo. Tô escrevendo um texto sobre você nesse instante.)
― Não ― Menti. ― Não tenho mais tempo pra isso.
― Hum… Então você mudou.
― Mudei muito.
― Mentira sua ― Ele me olhou como uma criança implicante.
― Acredite no que quiser ― Retribui o olhar.
― Aposto que ainda conta os dias e as datas.
― Não mesmo. Nem me lembrava mais disso. Aliás, que dia é hoje?
― Quanto tempo pro teu aniversário?
― Que?
― Quanto tempo falta. Para o teu. Aniversário. ― Ele falou pausadamente.
Engoli seco. ― Eu sei lá.
― Eu sei que você tá contando.
― O que? Eu mesm…
― Anda.
― Não sei.
― Diz.
― Não dig…
― Agora.
O encarei por alguns segundos até suspirar pesadamente.
― Três meses e quatro dias.
― Aniversário da tua cachorra.
― Sete meses e… seis dias. 12 de dezembro. Aniversário de Belo Horizonte. Dia da morte do José de Alencar. Aniversário do Silvio Santos também.
― Viu, eu disse.
― Grande coisa. Todo mundo tem uma mania.
― Grande coisa. Você não mudou nada.
― Cortei o cabelo.
― Não mudou a cor.
― Não assisto mais novela.
― Continua achando que a vida é uma novela mexicana.
― Não como mais miojo.
― Ainda odeia usar garfo pra cortar a carne.
― Tá. Tá. Eu entendi. Não mudei. Você venceu. Agora, pra quê tudo isso?
― Pra me certificar.
― De que?
Ele olhou pro lado e suspirou. ― De nada. De nada. Ei… tem um cara parado ali feito um bobo, acho que ele ta procurando alguém.
Segui o seu olhar e avistei um cara com um combo de pipoca na mão.
De alguma forma ele sabia quem esse cara é. Estranho.
― É meu namorado. Eu… eu tenho que…
― Tem que ir. ― Ele balançou a cabeça positivamente.
Droga. Porque é tão difícil ir embora?
― Então, até um dia.
― Até ― Ele pegou minha mão e deu um beijo, então deu um meio sorriso e foi se afastando.
Mordi o lábio enquanto o vi partindo ― já o vira partir tantas outras vezes. A gente nunca acha que um dia vai acabar. A gente sempre acha que vai ter mais, algum dia, alguma vez. Até que acaba. Até que o máximo de proximidade entre vocês seja apenas encontrar um ao outro na fila de um cinema. E não há nada mais triste que isso de seguir em frente. Não há nada pior do que desvencilhar sua vida da de outra pessoa. E mesmo com tudo, é como se não existisse realmente um fim, mesmo depois de ter tido um fim…
― Espera!
Ele se virou pra mim com surpresa em seus olhos ― O que?
― Você!
― Eu…
― Você é minha coca-cola.
― Eu sou o quê?
― Minha coca-cola. ― Ele vinha se aproximando e eu fechei os olhos, tentando me lembrar das palavras dele anteriormente. ― “Significa que tu deixou de tomar coca, mas nunca vai deixar de tomar coca. Ela ta aí dentro de ti ainda.”
― E o que isso significa?
― Você sempre vai estar aqui, mesmo não estando.
Ele deu um sorriso triste, e pelo seus olhos, vi que o meu também era. Ele colocou uma mecha do meu cabelo para de trás da minha orelha e suspirou.
― Você sempre vai ser a minha coca-cola, também.
― Até mais então.
― Até um dia, preta.
Cada um seguiu em frente novamente ― e literalmente. Fui encontrar o cara com o combo de pipoca, mas não pude deixar de olhar pra trás e ver, por mais uma ― e talvez última ― vez, o cara com a camisa das formigas atômicas.
Acho que vou tomar coca-cola hoje. (Iolanda Valentim)

Uma amiga minha disse que te viu semana passada. Não, você não a conhece, não era do seu tempo… nosso tempo. Mas, ah, ela te conhece sim. Como se eu ainda não falasse em você com uma voz de gatinha abandonada. O meu amor mais lindo e triste e infinito. Meu amor mais marcante e mais marcado. O único, se duvidar. O único que sempre me dá um nó na garganta. E quanto tempo faz mesmo? Dois, três anos?
Três anos, seis meses e dez dias.
É, meu velho hábito de contar os dias e festejar as datas mais bobas do calendário. Mas ah, eu não faço mais isso. Mal sei o dia do meu próprio aniversário agora. Você foi embora e nossos hábitos e manias também foram. Mas olha que doloroso, eu aqui contando os dias de novo. É só que você sempre é a exceção. Você é meu velho hábito. Meu velho amor.
Mas, como assim ele fez uma tatuagem? Não, ele não tinha tatuagem. Não. Então ele fez mesmo? Como é? Não, explica mais. Não acredito que ele tatuou isso. Não é uma frase da Taylor Swift? Não? Ok. Como ele tava? Qual a cor da camisa dele? Verde? Mas ele nunca usava verde. Ele tava com alguém? Você conseg… Ok. Não, eu não quero saber quantas vezes ele respirava por minuto. Não precisa ser ignorante.
Mas cá entre nós, você contou?
Ah…
Eu escrevo um texto pra você e abro a ferida. Até gosto. Por que não dói mais. Só vem a lembrança. E o que era tristeza, confusão e briga, virou uma lembrancinha inesquecível, uma saudade gostosa, uma certeza de que um dia eu pude abrir meu coração pra alguém.
E juro que pensei que depois de tanto tempo eu não iria me importar tanto com o simples fato de que uma amiga minha viu você. Convenhamos, que bobagem. Todo mundo vê todo mundo. Um dia desses eu vi uma amiga minha de maternal e não morri. Mas… só ouvir seu nome me dá um nó na garganta. E eu sinto aquela vontade de correr pro banheiro e ficar quietinha lá, sentada no chão, tentando lembrar como nós éramos e sofrer por nunca mais poder sentir aquilo de novo.
Quando falam em você eu sinto um pouco de raiva. Falar de você é sagrado. Ninguém pode tocar no seu nome de forma casual e distraída. Você é o assunto mais delicado da minha vida. Ainda me sufoca, por que eu não posso contar sobre você para o mundo. Eles não entenderiam. Você é… você. Único. Raro. Eu mal me permito pensar em você, quanto mais falar sobre. Eles não merecem saber. E eu ainda tropeço, soluço, respiro devagar e gaguejo quando tento pôr em palavras o que um dia a gente foi. Então deixa pra lá.
Eu rio da cara de quem eu amei depois e de quem eu ainda vou amar. É patético, é quase ilegal esses outros amores. Porque, depois do seu, eu acho que nunca vou encontrar mais nenhum que satisfaça, que complete, que baste. E houve aquele tempo triste que eu tentava te achar em outras pessoas. Imagina quão frustrada eu fiquei ao descobrir que não dá pra substituir o insubstituível? Foi tão difícil. Hoje não é mais. Hoje tudo o que eu quero é que você nunca vá embora. Da minha cabeça. E que as lembranças ainda permaneçam vivas. E que de vez em quando eu ainda possa me sentar no chão do banheiro, fechar os olhos e sorrir lembrando de tudo. É tão bom sentir que algo é pra sempre mesmo que já tenha acabado. (Iolanda Valentim)